Novo disco do Pet Shop Boys abandona a pista de dança, não as melodias

admin
15 Oct, 2026
Em álbum conceitual sobre o matemático britânico Alan Turing, o Pet Shop Boys troca o synthpop por uma obra ambiciosa sobre genialidade, perseguição e injustiça. É estranho a dupla britânica fazer um disco que não tenha como destino uma pista de dança. Desde os anos 1980, Neil Tennant e Chris Lowe construíram uma das discografias mais sofisticadas do pop eletrônico, combinando melodias irresistíveis, batidas sintéticas e letras que observam com ironia as contradições da vida urbana. No recém-lançado "A Man from the Future", a proposta é contar uma história de sofrimento, intolerância e genialidade. O protagonista é Alan Turing (1912-1954), que ajudou a decifrar os códigos militares alemães durante a Segunda Guerra Mundial e lançou as bases da computação moderna. O projeto não surgiu agora. "A Man from the Future" estreou em julho de 2014, no Royal Albert Hall, em Londres, executado por orquestra e coro da BBC. Mais de uma década depois, Tennant e Lowe revisaram a composição e lhe deram uma nova configuração, com maior ênfase na eletrônica e arranjos de cordas mais intimistas. No disco, oito faixas percorrem momentos decisivos da vida de Turing, da curiosidade científica à perseguição judicial que sofreu por ser homossexual. O álbum é creditado a Tennant, Lowe e Andrew Hodges, biógrafo de Turing. E vem uma questão clara: o que é esse álbum? Basicamente, sons eletrônicos e orquestrais criando música solene, que recebe por cima dos acordes trechos da biografia do matemático com narração da atriz Juliet Stevenson e intervenções vocais de Tennant. A voz segura de Stevenson confere dramaticidade à história, enquanto o vocal característico de Tennant, que sempre cantou de modo despojado, quase conversando com o ouvinte, traz um pouco de humanidade, de descontração. O que parece interessar a Tennant é a história do homem que não conseguiu escapar das convenções sociais de seu tempo. Os sintetizadores de Lowe deixam de funcionar prioritariamente como motores rítmicos. Junto com as cordas arranjadas pelo compositor alemão Sven Helbig, ampliam a dimensão dramática da música. Em "He Dreamed of Machines", a fascinação de Turing pela ciência ganha contornos de uma viagem eletrônica inquietante, mas que não convida à dança. "The Enigma" recupera algo do impulso rítmico do Pet Shop Boys, mas ainda numa pulsação sombria. Já "Other Ranks" introduz uma atmosfera de jazz perturbador. A sequência culmina em "The Trial", talvez o momento mais doloroso do conjunto: a música acompanha a condenação do cientista, em 1952, acusado de prática da homossexualidade, e a imposição de um tratamento hormonal destinado a puni-lo. É música melancólica, claustrofóbica. A dupla já disse em entrevistas que a história de Turing afeta a ambos. Nos anos 1980, Tennant e Lowe trabalhavam em uma indústria pop na qual a exposição da homossexualidade podia representar um risco profissional e pessoal. Turing morreu em 1954, aos 41 anos, e só décadas depois recebeu o reconhecimento público que lhe havia sido negado em vida. A dupla tem mais uma surpresa no lançamento: uma edição em dois discos oferece versões instrumentais dos oito movimentos, permitindo apreciar a composição sem os vocais e a narração. A edição em Blu-Ray inclui também versões sem narração. A alternativa reforça a natureza híbrida do projeto. As músicas podem ser ouvidas como parte de uma narrativa biográfica ou como uma suíte eletrônica e orquestral autônoma. A primeira modalidade privilegia a história; a segunda evidencia a arquitetura sonora construída por Tennant, Lowe e Helbig. "A Man from the Future" não oferece a gratificação imediata de um álbum convencional de canções. Não pretende substituir os grandes discos dançantes da dupla. Seu interesse está em demonstrar que o Pet Shop Boys pode abandonar temporariamente a pista sem perder a capacidade de criar atmosferas e melodias expressivas. A obra talvez não tenha a força dos melhores singles da dupla, mas é um projeto musical de ambição incomum, no qual a eletrônica não é escapismo dançante: conduz o ouvinte a encarar uma das injustiças mais vergonhosas da história britânica.