Perdi meu pai muito jovem e essas experiências ficam dentro da gente

admin
20 Oct, 2026
Na reta final da novela mais bonita que assisti nos últimos tempos, "A Nobreza do Amor", conversei com o ator Cassio Gabus Mendes. Você sempre soube que seu personagem, Casemiro, morreria? Sabia desde o começo que o Casemiro morreria, e isso ficou presente na construção do personagem. Não de uma forma consciente, o tempo todo, mas você passa a olhar pro personagem de outro jeito quando sabe que ele tem um tempo determinado. Acho que vivi o Casemiro mais intensamente por causa disso. Cada encontro, cada conversa, cada relação dele ganhava importância diferente. Quando você sabe que o personagem vai morrer, existe uma espécie de urgência, mas também uma delicadeza maior em relação a ele. Isso pode ter contribuído para ele ser tão querido. O Casemiro era um homem muito humano, com suas qualidades, seus defeitos, suas fragilidades. Sabendo que ele não ficaria até o fim, talvez eu tenha procurado não julgar tanto o personagem, simplesmente vivê-lo. Também acho que a morte, quando a gente consegue olhar para ela sem medo, acaba nos lembrando da importância da vida. A gente percebe que não tem tanto tempo assim e que é preciso estar mais presente, amar mais, prestar mais atenção nas pessoas. Saber que o Casemiro morreria me fez pensar justamente no contrário da morte: me fez querê-lo muito vivo enquanto estivesse ali. Como é o sentimento de sair de uma obra antes do fim? Você passa meses convivendo diariamente com aquelas pessoas, criando uma história junto, e de repente precisa se despedir antes que a história termine. A novela e os personagens continuam, a equipe continua trabalhando, mas para você existe uma interrupção. É como se você saísse antes de uma festa acabar. Foi muito emocionante para mim. Senti um carinho enorme de todos e acho que isso é uma das coisas mais bonitas do nosso trabalho: quando você percebe que, além do personagem, ficaram relações, amizades, afeto. Eu já vinha me preparando para essa despedida. Mas uma coisa é saber racionalmente que vai acontecer; outra é estar ali, no último dia, abraçando as pessoas com quem você conviveu durante tanto tempo. Fica uma saudade, claro. Mas fica também uma gratidão enorme. Eu saí da novela, mas o Casemiro e todas essas pessoas continuaram fazendo parte de mim. É a primeira vez que você morre em cena? Já morri outras vezes, mas cada personagem tem uma história, e a maneira como a gente vive essa experiência acaba sendo diferente. No caso do Casemiro, eu sabia onde aquela história ia terminar, mas precisava viver cada momento como se não soubesse. A morte faz a gente pensar na vida, nas pessoas que ama e nas perdas que já viveu. Eu perdi meu pai muito jovem e essas experiências ficam dentro da gente. Não necessariamente aparecem de uma maneira consciente quando estamos trabalhando, mas fazem parte de quem somos e, de alguma forma, podem estar presentes no nosso trabalho. A gente nunca está completamente separado da própria história quando interpreta um personagem. Às vezes, uma emoção vem de um lugar que nem sabemos explicar muito bem. Com o tempo, a gente aprende a olhar para a morte de uma maneira diferente. Ela continua sendo dolorosa, principalmente quando envolve alguém que amamos, mas também nos lembra que a vida está acontecendo agora. Que precisamos aproveitar as pessoas, os encontros, as coisas simples. Você já tinha gravado a morte do Casemiro. Como é receber o carinho do público, que se comoveu agora com as cenas, na era das redes sociais? É muito emocionante receber esse retorno, ainda mais depois de tanto tempo da gravação. Quando a gente está fazendo uma novela, vive aquela história intensamente, mas existe uma distância entre o que você está construindo ali, no set, e o momento em que aquilo chega ao público. E é muito bonito perceber que o Casemiro tocou as pessoas. A gente cria um personagem, se envolve com a história, mas nunca sabe exatamente como vai chegar no coração de quem está assistindo. Acho que a morte dele mexeu com as pessoas porque havia uma relação muito forte com a família, o Mirinho, a Graça. Quando alguém que faz parte da nossa vida, mesmo que seja numa novela, vai embora, a gente também sente aquela ausência. A força dessas cenas vem do trabalho dos atores, do texto, da direção, de toda a equipe. Quando tudo se encontra, a ficção consegue provocar sentimentos muito verdadeiros. Antigamente, o ator recebia esse carinho de uma maneira mais espaçada, uma carta, um encontro na rua. Hoje as pessoas escrevem, mandam mensagens, compartilham o que sentiram quase no mesmo instante em que a cena vai ao ar. É uma troca muito intensa e bonita. E tem uma coisa interessante: eu gravei essas cenas há algum tempo, já me despedi do Casemiro, mas, para o público, ele morreu agora. De alguma maneira, eu volto a viver essa despedida junto com as pessoas. É um privilégio do nosso trabalho. A gente se despede de um personagem, mas ele continua vivo na memória e no afeto de quem assistiu. A novela mudou de alguma forma o que você pensa sobre a desigualdade racial no Brasil? A novela tem o poder de fazer a gente olhar para determinadas questões de uma maneira diferente. Às vezes, a gente conhece a história do Brasil, estudou na escola, mas existe uma diferença muito grande entre conhecer os fatos e conseguir enxergar o que eles representam na vida das pessoas. As questões raciais no Brasil são profundas e não podem ser compreendidas sem olhar para a nossa história, para a escravidão e para as consequências que ela deixou na sociedade. Existe muito preconceito, muita desigualdade e muita coisa que a gente precisa reconhecer e enfrentar. Fazer uma novela que aborda essas questões é uma oportunidade de levar essa reflexão para dentro das casas, para as famílias, para pessoas que talvez não tenham o hábito de conversar sobre isso. Eu também aprendo durante o processo. Estudo, converso, ouço outras pessoas, entro em contato com realidades diferentes. Acho que isso amplia nosso olhar e nos torna mais atentos. Quanto mais a gente conhece a história do país e consegue compreender a experiência do outro, mais condições tem de construir uma sociedade menos desigual. A arte não resolve tudo, mas pode abrir portas, provocar perguntas e fazer com que determinadas conversas aconteçam. Se uma novela consegue despertar esse interesse nas pessoas, acho que ela já está cumprindo um papel muito importante. Na série que você está gravando agora, seu personagem, Alfredo, lida com a síndrome do ninho vazio? Sim, essa é uma das questões que o Alfredo vai enfrentar. "Resposta ao Tempo" é um projeto muito interessante, e estou muito feliz de fazer parte dele. A síndrome do ninho vazio é um tema que me chama a atenção porque fala de uma transformação importante na vida da família. Os filhos crescem, seguem seus caminhos, e os pais precisam encontrar uma nova maneira de se relacionar com eles e também consigo. É uma espécie de despedida, mas não uma perda definitiva. Os filhos e o amor continuam ali, só que a relação muda. Acho que toda mudança importante exige da gente um certo trabalho de adaptação, de aceitar que uma etapa terminou para que outra possa começar. É difícil. O ser humano não quer mudar, sair da zona de conforto. A vida é feita de ciclos, e nem sempre estamos preparados, mesmo quando sabemos que faz parte do processo de crescer e amadurecer. Como ator, gosto muito de personagens que atravessam essas experiências porque elas nos permitem explorar sentimentos com os quais muita gente se identifica. Quem nunca precisou aprender a lidar com uma despedida, uma ausência ou uma mudança que não escolheu?