Rover da Nasa detecta partículas de poeira ultrafinas em Marte

admin
29 Oct, 2026
O rover Perseverance, da Nasa, detectou as partículas de poeira mais finas já observadas em Marte. Com cerca de cem nanômetros de diâmetro, elas são 500 vezes mais finas que um fio de cabelo humano. A descoberta foi descrita em um artigo publicado na última segunda-feira (26) no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences. "Um tamanho menor de partícula não torna necessariamente a poeira mais perigosa. No entanto, partículas menores têm maior potencial para penetrar mais profundamente no corpo humano e são mais difíceis de serem eliminadas pelo organismo", afirmou o cientista planetário Scott VanBommel, da Universidade Washington em St. Louis (EUA). Autor do novo estudo, VanBommel é membro da equipe científica do Perseverance. O rover opera dentro e nos arredores da cratera Jezero, no hemisfério norte marciano, desde 2021. "Como ocorre com qualquer substância, a toxicidade depende da dose e da duração da exposição. A poeira marciana contém sílica, compostos de ferro e compostos de cloro, como o perclorato, que são reconhecidamente nocivos em doses suficientemente altas na Terra", explicou o pesquisador. O Perseverance mediu partículas de poeira que aderiram a componentes do rover, entre os quais materiais de trajes espaciais levados a bordo do veículo para que se possa observar como resistem ao ambiente hostil do planeta vermelho. Exemplos disso são amostras de fibra sintética Vectran e do revestimento protetor Teflon. Medições anteriores haviam identificado partículas de poeira marciana de até três micrômetros de diâmetro. Mas o Instrumento Planetário para Litoquímica por Raios X do Perseverance, ou PIXL, registrou duas categorias de partículas ainda menores. Além das partículas ultrafinas, havia uma categoria de partículas finas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro —em torno de 30 vezes mais finas do que um fio de cabelo. Partículas tão minúsculas poderiam ser pequenas o bastante para penetrar nos pulmões de um astronauta, entrar na corrente sanguínea e potencialmente causar danos a órgãos vitais. Outra preocupação é que o ambiente marciano e as propriedades físicas da poeira possam degradar, com o tempo, os materiais dos trajes espaciais e dos habitats. "Não temos evidências de que a poeira tenha danificado os materiais dos trajes espaciais, apenas de que ela tendia a interagir com eles de formas diferentes", afirmou VanBommel. "O Vectran pareceu reter partículas maiores de poeira, com maior concentração na parte inferior de sua trama. A amostra de Teflon reteve menos poeira, mas a poeira retida era mais fina, o que reflete diferenças na forma como as propriedades eletrostáticas podem fazer com que partículas de diferentes tamanhos adiram preferencialmente a cada material". Humanos em Marte A Nasa pretende enviar astronautas a Marte na década de 2030. "Essas descobertas ajudarão a orientar o desenvolvimento de futuros sistemas de suporte à vida humana para missões tripuladas a Marte, incluindo a escolha dos materiais dos trajes e dos habitats, além de métodos de limpeza eficazes para partículas de dimensões submicrométricas. Elas também complementam as diretrizes e os protocolos estabelecidos pela Nasa para riscos toxicológicos", disse VanBommel. "A quantidade de poeira que chegará a um habitat dependerá, em grande parte, do projeto dos trajes e das câmaras de descompressão, e esse trabalho está em andamento. Atualmente, a Nasa estuda os suitports —estações de acoplamento para trajes espaciais— e câmaras de descompressão de compartimento duplo, além de outros conceitos, para impedir que a poeira entre nas áreas habitáveis", acrescentou o pesquisador. A agência americana tem experiência com os efeitos da poeira desde os pousos dos astronautas das missões Apollo na Lua, entre 1969 e 1972. A poeira lunar deteriorou as camadas externas dos trajes espaciais, danificou vedações e arranhou viseiras. Ela também pode ter sido associada a sintomas semelhantes aos da rinite alérgica em alguns astronautas. Mas a poeira de Marte é diferente da poeira lunar. "Na Lua, a poeira é gerada sobretudo por impactos na superfície, inclusive de micrometeoritos. Sem atmosfera ou vento para desgastá-las, as partículas lunares permanecem afiadas e angulosas. A maior parte da preocupação com a poeira lunar decorre de seu formato. No caso da poeira marciana, as principais preocupações são sua composição química e o tamanho das partículas", disse VanBommel. A poeira de Marte se origina principalmente das rochas basálticas de granulação fina do planeta. O intemperismo das partículas as torna menos abrasivas. "O ambiente de ventos ativos mistura a poeira em escala global, conferindo-lhe uma composição bastante uniforme. Esse mesmo ambiente arredonda as partículas e, por meio de colisões, fragmenta-as gradualmente em partículas menores", afirmou o cientista. O foco do Perseverance tem sido a busca por sinais de antiga vida microbiana em Marte. Mas a Nasa também tem usado o rover na preparação para missões tripuladas. "Os resultados desse estudo não significam que Marte seja perigoso demais para os seres humanos. A poeira marciana é um risco que precisa ser levado em conta no planejamento, assim como a radiação e a distância da Terra", disse VanBommel.