Empresa chinesa cria aparelho com IA e laser para caçar mosquitos

admin
30 Oct, 2026
Changzhou (China) | The New York Times Para quem já perdeu o sono com o zumbido infernal dos mosquitos, a IA (inteligência artificial) pode estar prestes a oferecer uma solução —equipada com um laser. Uma empresa chinesa começou a comercializar um aparelho de US$ 1.000 (R$ 5.432) equipado com inteligência artificial, capaz de rastrear mosquitos em voo e queimar suas asas. O dispositivo usa tecnologia presente em carros autônomos para localizar os alvos e recorre à IA para decidir quando é seguro disparar. Em uma demonstração recente nos escritórios da empresa responsável pelo aparelho, o equipamento pareceu bastante eficaz. A máquina branca, quase do tamanho de um tijolo, atingiu rapidamente um mosquito após o outro. Cada inseto era consumido por uma pequena chama verde ou azul, acompanhada de um estalo discreto. Para quem já desejou uma morte terrível aos mosquitos, trata-se de uma maneira bastante tecnológica de realizar esse desejo. O laser proporciona um fim cruel, mas não rápido. Mosquitos que têm as asas queimadas podem levar horas ou até dias para morrer, permanecendo no chão e se contorcendo levemente, afirmou Wang Chuan, presidente-executivo e fundador da Photon Matrix, sediada em Changzhou, a cerca de 160 km a noroeste de Xangai. Após a demonstração, examinei os mosquitos atingidos. As asas pareciam ter desaparecido, mas as pernas e os corpos estavam intactos. Nenhum deles conseguia voar, mesmo quando passei a mão diretamente sobre os insetos. O aparelho, porém, traz um risco potencialmente perigoso. Um laser potente o suficiente para incapacitar um mosquito também pode causar danos aos olhos humanos. Chamado "Laser Mosquito Air Defense System" (sistema de defesa aérea a laser contra mosquitos, em tradução livre), o dispositivo utiliza um laser de classe quatro, a categoria mais potente, normalmente reservada a aplicações industriais. Esse tipo de equipamento pode provocar lesões na retina em menos de um segundo, e sua comercialização e uso são rigidamente regulamentados. Embora os Estados Unidos liderem o desenvolvimento dos modelos mais avançados de inteligência artificial, o aparelho mostra a rapidez com que a China incorpora recursos de computação de alto desempenho a produtos de consumo. A tecnologia também tem potencial militar. Não é difícil imaginar como um sistema que hoje rastreia e derruba mosquitos poderia ser adaptado para atingir drones no futuro. Wang afirmou que a empresa busca aprovação regulatória na China, na Europa e nos Estados Unidos e disse acreditar que a autorização chinesa está próxima. Nos Estados Unidos, fabricantes podem começar a vender novos dispositivos a laser depois de apresentar a documentação exigida à FDA (Food and Drug Administration), que não testa os produtos, afirmou Ken Barat, ex-responsável pela segurança de lasers no Laboratório Nacional Lawrence Berkeley. Ele supervisionou a elaboração dos padrões técnicos internacionais para lasers de pesquisa. Barat disse que os diversos mecanismos de segurança da Photon Matrix podem tornar o aparelho seguro. Mas fez uma ressalva: um laser de classe quatro projetado para se concentrar em algo tão pequeno quanto um mosquito pode concentrar "muita energia" em uma área reduzida. A Photon Matrix testou inicialmente lasers menos potentes, de classe três, mas constatou que eles não conseguiam incapacitar os mosquitos de maneira confiável, segundo Wang. A empresa optou por um laser de classe quatro e limitou cada disparo a um centésimo de segundo —tempo suficiente, de acordo com ele, para queimar as asas e reduzir, mas não eliminar, o risco de danos aos olhos. Como as asas têm pouca capacidade de absorver calor, elas são queimadas antes que o corpo do mosquito seja muito afetado. Para proteger pessoas e animais de estimação, uma câmera equipada com IA os reconhece e impede o disparo do laser. O sistema também identifica superfícies refletoras, que poderiam fazer os feixes ricochetearem em direções imprevisíveis. Um sistema de infravermelho ilumina o ambiente para permitir o funcionamento da câmera à noite. Um radar separado detecta movimentos de pessoas ou animais no caminho do laser, mesmo na escuridão total. Os compradores também precisam passar por um teste de segurança com 15 perguntas, entre elas qual é o cômodo menos adequado para instalar o aparelho. (A resposta é o banheiro, por causa da alta umidade, do espaço confinado e das superfícies refletoras.) Apenas quem acerta todas as questões pode cadastrar uma impressão digital para ativar a máquina. A caça aos mosquitos utiliza "LIDAR" —sigla em inglês para detecção e alcance por luz, tecnologia amplamente empregada em carros autônomos. O aparelho emite 100 mil pulsos de laser extremamente fracos por segundo para mapear uma área em um plano bidimensional à sua frente. Assim, consegue rastrear objetos em movimento menores que uma ervilha quando eles atravessam esse plano. A ideia de derrubar mosquitos em pleno voo com lasers é anterior ao atual avanço da IA (inteligência artificial). Em 2010, a Intellectual Ventures, empresa fundada por um ex-diretor de tecnologia da Microsoft, apresentou um sistema semelhante de combate a mosquitos, mas nunca o produziu em escala industrial. A Photon Matrix afirmou ter recebido 5.000 pedidos antecipados, com pagamento, pelo aparelho e fechado contrato com uma fabricante terceirizada. A produção em massa deve começar nas próximas semanas. Wang já planeja uma nova geração do dispositivo, capaz de disparar pulsos ainda mais curtos. Com um modelo futuro, ele espera que a umidade dos olhos absorva a energia do laser antes que ela alcance a retina.