Clubes de leitura conservadores impulsionam a venda de livros no Brasil

admin
1 Nov, 2026
A ideia de que "o brasileiro não lê” é praticamente um lugar-comum nacional. Somos um país desacostumado ao hábito da leitura, prática excêntrica de acadêmicos e intelectuais. Porém, números deste ano podem revelar exatamente o contrário. E o modelo que puxa este movimento é um bastante antigo: os clubes do livro. Em vez de folhear um livro qualquer na livraria, em busca de uma história cativante, o brasileiro tem sido seduzido por outra forma de aproximação com as obras de literatura. Os clubes do livro oferecem edições cuidadosas, com produção de conteúdo de qualidade e massiva propaganda nas redes sociais. E com gêneros para todos os gostos. Caso de sucesso A Brasil Paralelo, produtora conhecida por grandes documentários, como “Brasil: A Última Cruzada” e “História do Comunismo”, lançou seu clube do livro este ano, já atingindo milhares de assinantes mensais. Entre as obras, o clube oferece sobretudo obras de história e filosofia, como “História da Civilização na Europa”, de François Guizot, “A Cultura do Renascimento na Itália”, de Jacob Burckhardt e “O Essencial da Grécia”, compilado de textos dos filósofos Platão e Aristóteles. “A recepção do público à nossa entrada no mercado editorial em 2026 foi uma grata surpresa. Em poucos meses, essa frente ganhou uma relevância muito grande aqui dentro. Acredito que isso tenha muito a ver com a confiança que construímos ao longo dos dez anos do Brasil Paralelo”, afirmou Luan Licidonio Bez, CFO da empresa. Modelo similar é ofertado pelo Clube de Literatura Clássica, este mais focado nas grandes obras de ficção. Os assinantes aqui já receberam livros como “O Jogador”, de Fiódor Dostoiévski, "Odisseia", de Homero e até uma nova edição de “Quincas Borba”, o clássico nacional de Machado de Assis. “No clube, procuramos formar e reunir leitores culturalmente exigentes, interessados nas grandes obras e naquilo que elas têm a oferecer. Cada livro recebe um trabalho editorial cuidadoso e especializado, realizado por profissionais que se dedicam a estudar a obra e a torná-la mais acessível ao leitor, seja por meio de traduções, notas, textos de apresentação, vídeos, materiais complementares ou conteúdos digitais”, afirma Lucas Zapelini, fundador do CLC. Produções contemporâneas também têm seu espaço neste novo mercado de leitores brasileiros. A Barca é um grupo que reúne 13 clubes de assinatura de livros, dentre eles a “Pessôa”, que foca na literatura contemporânea. Neste mês, lançaram de forma inédita “Todos os Demônios estão aqui”, antologia de contos de terror assinada por autores como Rodrigo Duarte Garcia, Alexandre Soares Silva, Alexandre Sugamosto e o cronista da Gazeta do Povo Francisco Escorsim. “Atualmente estamos em aproximadamente 65 mil envios mensais, e acredito que vamos fechar o primeiro ano completo com 100 mil. Publicamos em língua portuguesa, com qualidade, obras que de outro modo não existiriam, usando todos os recursos possíveis para disseminá-las, inclusive doando parte delas a universidades”, diz Lorenzo Fioreze, fundador e CEO da BARCA. O livro físico em alta Para além dos citados bem-sucedidos modelos de assinatura, também os dados sobre vendas de livros físicos são positivos. Neste ano, a Bienal do Livro de São Paulo teve recorde de público, com 760 mil visitantes e crescimento de 57% na média diária de faturamento em relação à edição anterior. Ainda, segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, nas primeiras 36 semanas de 2026 o mercado brasileiro registrou um crescimento de 8,7% no número de exemplares vendidos e de 11,9% no faturamento em relação ao mesmo período de 2025. “Tenho também a impressão de que as vendas de livros físicos vêm crescendo especialmente pelos canais digitais, e o mais interessante é que esse crescimento parece estar acontecendo cada vez mais por canais próprios das editoras e outras plataformas, para além dos grandes varejistas tradicionais, como a Amazon”, diz Zapelini. Menos identitarismo e mais qualidade As obras, nos casos mencionados, escapam da hegemonia das pautas identitárias, ainda em voga na literatura brasileira. Segundo Luan, “o propósito é resgatar os bons valores na sociedade. É isso que orienta nossa curadoria. Valorizamos obras que atravessam gerações e tratam de questões que continuam relevantes para a sociedade”. Já Fioreze afirma que, acima de disputas políticas, a literatura de qualidade pode ser a soberana. “Existe um perfil de leitor, de direita e de esquerda, que se interessa pela literatura de qualidade. Nosso objetivo é oferecer esta literatura. O leitor, de onde vier, pode aderir a qualquer um de nossos projetos”. O fenômeno pode ameaçar, em breve, a hegemonia da literatura identitária, que ainda ocupa os postos de livros mais vendidos no país. Entre eles, “Quando”, de Carla Madeira, explora maternidade, culpa, homofobia de forma ginasial. “Cabeça de Santo”, de Socorro Acioli, é uma tentativa fracassada de explorar, novamente, o regionalismo. Porém, a cada mês, quando um livro dos clubes de assinatura chega na porta da casa do assinante, a literatura de qualidade sobe um degrau.