Fãs levam cultura pop à mobilização política em 2026

admin
2 Nov, 2026
Fãs levam cultura pop à mobilização política em 2026 Relatório de universidade federal do Rio identifica atuação de mais de 600 grupos de fandoms e torcidas em campanhas digitais e atos políticos Especial para o Diário A mobilização digital de fã-clubes e comunidades da cultura pop, conhecidos como fandoms, ganhou protagonismo na reta final do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 e passou a integrar as estratégias de engajamento político nas redes sociais. Após a confirmação do segundo turno, em 4 de outubro, mais de 600 grupos organizados de fãs brasileiros se articularam para transformar plataformas digitais em espaços de mobilização em torno da candidatura à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O movimento ganhou força nas redes sociais no dia seguinte, em um cenário de disputa acirrada com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A participação dessas comunidades no debate eleitoral foi analisada pelo relatório Fandoms em Ação: ativismo político e cultura pop nas eleições brasileiras de 2026, elaborado pelo Cultpop Lab, laboratório de pesquisa em cultura pop, comunicação e tecnologias vinculado à UFF (Universidade Federal Fluminense). O estudo identificou como as comunidades ligadas a artistas internacionais, grupos de K-pop (música pop coreana) e coletivos de futebol utilizaram estratégias tradicionais da cultura de fãs, como campanhas coordenadas, produção de conteúdo e mobilização coletiva, para ampliar a participação política. O levantamento acompanhou manifestações digitais e presenciais durante o segundo turno e identificou estratégias que aproximaram a linguagem dos fãs da comunicação política. Entre as iniciativas estavam a circulação de hashtags, vídeos, memes, artes e materiais de convocação para atos públicos. O estudo também observou a atuação de comunidades ligadas a artistas como Beyoncé, Taylor Swift, Lady Gaga e Olivia Rodrigo, além de fãs de K-pop. Os pesquisadores reuniram aproximadamente 6.500 publicações no Instagram, TikTok, X e Threads, concentradas principalmente nas hashtags #FandomsComLula e #FandomsNoMasp e em perfis ligados à mobilização. Em uma segunda etapa de coleta manual, foram selecionadas 180 postagens, após a exclusão de conteúdos repetidos. O levantamento também incluiu acompanhamento presencial de dois atos em São Paulo: o primeiro, em 11 de outubro, na Avenida Paulista, organizado inicialmente por integrantes de fandoms e que, posteriormente, recebeu apoio partidário; e o segundo, em 13 de outubro, no Largo da Batata. A mobilização não se limitou à divulgação de posicionamentos. Os fandoms recorreram a práticas comuns às comunidades de fãs, como a organização de campanhas coletivas, a produção de materiais visuais e a articulação de publicações para ampliar o alcance de determinadas mensagens. A familiaridade com essas ferramentas permitiu transportar para a política formas de engajamento já utilizadas em ações relacionadas aos artistas e produtos culturais admirados. O relatório ressalta, porém, que os fandoms não são grupos homogêneos. A identificação com um artista ou uma obra não significa concordância política entre todos os integrantes. O ativismo observado corresponde a uma parcela dessas comunidades e também provoca divergências internas sobre a participação em disputas eleitorais. Torcidas rivais se unem em defesa de pautas democráticas A rivalidade entre Corinthians e Palmeiras deu lugar a uma mobilização conjunta durante as eleições presidenciais de 2026. Grupos de torcedores utilizaram símbolos do futebol e a força das arquibancadas para defender pautas democráticas e manifestar apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A articulação foi registrada pelo relatório Fandoms em Ação, do Cultpop Lab, e por uma checagem do Projeto Comprova, publicada pela Agência Tatu. Um dos exemplos foi a união entre o Coletivo Democracia Corinthiana e o Palmeiras Antifascista, que divulgaram conteúdo conjunto em defesa de Lula. A mobilização também chegou às ruas, com um ato em São Bernardo , no dia 17, que contou com o deputado federal Vicente Paulo da Silva , o Vicentinho (PT), e a vereadora de Diadema Patty Ferreira (PT). As publicações utilizaram camisas, arquibancadas e a rivalidade entre as equipes para destacar pontos em comum, como a identificação com a classe trabalhadora e a defesa de direitos sociais. O relatório também recupera a Democracia Corinthiana, movimento do início dos anos 1980 que defendia a participação de jogadores e funcionários nas decisões do clube e se tornou referência na luta pela redemocratização. Outra referência é a Coligay, torcida do Grêmio criada na década de 1970 e identificada pelo estudo como a primeira organizada LGBTQIAP+ do clube, que reivindicou espaço em um ambiente marcado pelo machismo e pela homofobia. A participação de torcedores em atos políticos não significa necessariamente apoio institucional dos clubes ou das diretorias das organizadas. Apuração do Projeto Comprova, publicada em 20 de outubro, mostrou que uma fotografia de torcedores de Corinthians e Palmeiras em um ato pró-Lula, na Avenida Paulista, foi utilizada para sugerir adesão institucional das equipes. A checagem confirmou que os participantes não ocupavam cargos nas diretorias das respectivas torcidas. A apuração consultou dez clubes. Corinthians, Palmeiras e Atlético-MG declararam neutralidade partidária, enquanto os outros sete não responderam. Entre as equipes da Série A, o Corinthians foi o único a parabenizar publicamente Lula pela reeleição. O presidente é torcedor do clube. Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.