O boletim Notícias FAPESP e a origem da rede Scielo

admin
6 Nov, 2026
A edição 14 do boletim Notícias FAPESP — publicação mensal que deu origem ao que hoje é Pesquisa FAPESP — noticiou, em novembro de 1996, um projeto para melhorar a indexação e a distribuição do que era produzido pela ciência brasileira. Na mesa de um almoço em Caxambu (MG), onde acontecia um evento de editores científicos, nasceu a ideia do Scientific Electronic Library Online (Scielo). Quem relembra o momento é Abel L. Packer, diretor do programa Scielo e coordenador de projetos da Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FapUnifesp). Há 30 anos, ele, que era especialista em informática de bibliotecas do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), e o bioquímico Rogério Meneghini, então assessor científico da FAPESP, tratavam do futuro da produção científica brasileira. Meneghini preocupava-se com o fator de impacto (FI, métrica que mede a média de citações recebidas pelos artigos de um periódico) em publicações nacionais, enquanto Packer queria modernizar a distribuição. “Havia poucos recursos para impressão, e a distribuição era cara. Então, o número de cópias de periódicos era mínimo”, recorda Packer. Naquele tempo, um pesquisador estrangeiro que quisesse acessar periódicos brasileiros tinha de pedir a bibliotecários de uma universidade que preenchessem formulários contendo o assunto buscado. Os papéis iam de avião até o Bireme, em São Paulo, que retornava a lista de artigos disponíveis. Então, o pesquisador selecionava o material de interesse, e o ciclo se repetia: bibliotecários, formulários e avião. O processo levava até um mês, uma dinâmica que Packer queria mudar. No almoço, intermediado por Lewis Greene, então presidente da Associação Brasileira de Editores Científicos (Abec), Meneghini insistiu no fator de impacto para orientar financiamentos pela FAPESP, lembra Packer. “Eu dizia que só seria possível medir o FI acessando as referências bibliográficas. Para ter esse acesso, só digitalizando as revistas. Então, juntamos as ideias num projeto on-line”, descreve. O projeto para o desenvolvimento de uma metodologia para a preparação e disseminação de publicações científicas eletrônicas foi aprovado por José Fernando Perez, então diretor científico da FAPESP. Assim, em 1997, dez revistas científicas de referência formaram o projeto-piloto. “A decisão que resultou na relevância que o Scielo tem hoje foi oferecer acesso aberto”, lembra Packer. A biblioteca virtual já nasceu disponibilizando, sem custos, periódicos indexados que podiam ser lidos e baixados por todos. Hoje a rede do Scielo é formada por 17 países, cada um responsável por financiar e gerenciar a própria coleção nacional — a brasileira tem mais de 300 periódicos indexados —, mas com tecnologia e metodologias compatíveis. Há planos ainda para expandir para China e Turquia. Em 2024, o financiamento do Scielo, mantido quase integralmente pela FAPESP desde o início, passou a vir de um consórcio em que o governo federal assumiu a maior parte, por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), apontando para uma nacionalização do projeto. Republicar